Na Janela do mundo - Conto

March 9, 2015

 

 

Entre uma carícia e outra nas minhas folhas de papel, tenho o hábito de observar o azul e o verde dos fundos do meu atelier, no terceiro andar do prédio onde moro. Neste flutuar sem asas, tenho a impressão de sentir o hálito de Deus no vento que balança as folhas, nos pássaros que desfilam apressados e no zumbido dos zangões. Depois, reparo os telhados e os varais tomados de lençóis multicolores dançando ao sopro da aragem. Respiro tudo isso na esperança de assimilar o equilíbrio, a harmonia...

 

Embora neste momento tudo isso soe a um estado de paz de espírito, algo me desconserta. Um quê de emergência me abala: O mundo dentro de mim... Sinto que nunca ele foi tão meu quanto é agora.

 

O terrorismo, os conflitos, a estupidez do homem... Como conviver passivamente com isso? Penso na história e constato que não é um problema novo. Quantas guerras já aconteceram? Quantos séculos já se passaram e a barbárie ainda persiste imperiosa em nome da ambição ou do próprio espírito de sobrevivência? Tantas mortes, mutilações. Gente comum que chora, sorri e almeja coisas boas. Penso nos irmãos, nos amigos, nos meninos...

 

Enquanto viajo por estas questões atuais e intrometidas, reparo na rua lateral à minha esquerda, uma mulher sentada na varanda de uma casa, sozinha, numa quietude quase triste. A imobilidade de nossos corpos faz com que eu imediatamente me identifique com ela. Pensando bem, meu corpo está parado, mas meu espírito...

 

Uma curiosidade infantil me toma. Que tipo de ser humano será aquele? Amado, respeitado, valorizado? Saberá também amar, respeitar e valorizar os outros? Parece atrevimento meu questionar isso. Será?

 

Alguns minutos já se passaram e a mulher continua na mesma posição. O vento brinca com seus cabelos embaraçando-os, mas ela parece não se importar. Talvez esteja a desfrutar desta brisa que nos visita às 17:00 horas acompanhada de nuvens cinzentas e alguns raios de sol. O que estará se passando em sua cabeça? Estará triste, se sentindo solitária? Ou simplesmente aguarda os filhos de volta da escola? Será que os tem?

 

Ainda que com vários graus de hipermetropia e astigmatismo desnudos dos óculos, detenho-me em sua imagem como se eu dependesse disso. Por um momento penso na possibilidade dela ser uma adolescente sentada daquela maneira abraçada às pernas com o queixo nos joelhos, possivelmente a remoer os conflitos da idade. Espere, ela não está só, um cão a rodeia. Um carinho incondicional acalenta seu isolamento. Fixo ainda mais o olho espião e descubro que há alguém com ela sentado bem à esquerda da varanda, quase imperceptível e parecem conversar. Ótimo, ela não está só como eu havia imaginado. Ou será que sim? Afinal, solidão não é somente um estado físico. É uma moléstia que corrói as almas que não encontram nas outras o reflexo de sua beleza ou o retorno para seus anseios. Desencontros do amor...

 

Flagro-me. Percebo que enquanto sobrevoo estas cenas, me transformo numa espécie branda de voyeur. Concluo que nem sempre precisamos ser mentalmente doentes para infringirmos o direito de privacidade dos outros. Entretanto, não me culpo. Preciso de uma resposta, de um alento.

 

Desvio os olhos para o nada e constato que estou demasiadamente filosófica. Dentro de mim o mundo chora... Olho minhas mãos, meus braços. Sou inquirida pela calma gritante da paisagem à minha frente e com tremendo estrondo o pânico me toma. Desestabilizo-me...

 

O som de buzinas de carro chamam a atenção. Volto os olhos para a casa lá embaixo, e vejo a mulher, o rapaz e o cachorro fazendo festa para alguém que acaba de chegar. Ouço as exclamações de afeto, vejo os beijos, sinto os abraços. Minha alma emudece...

 

O sal chega à boca, misturando-se ao fel. Sinto-me impotente, pequena, menina... Durante os últimos minutos estive olhando para mim mesma a encarar os malditos gigantes... Guerras de gangues, corrupção de menores, balas e vidas perdidas... Como ser indiferente a tantos horrores? Apenas porque ecoam no outro lado da cidade, longe da realidade que vivo? Suas ondas alcançam meu peito.

 

Pressinto o clamor de mães em pânico agarradas aos filhos pequeninos; vislumbro pais desorientados pela proximidade dos riscos ameaçadores; desola-me a angústia dos jovens tão sedentos de vida se tornando aves de rapina no alto dos morros, privados da chance de um futuro bom...

Também sou uma refugiada. Estou lá assistindo a tudo sem poder fazer nada. Meu corpo está intacto, mas minha alma se desintegra a cada sonho estilhaçado que jaz pelas ruas. Caminho desolada pelos becos tomados por fuzis, animalidade e medo. Assisto minha fé no homem ser alvejada por assovios agudos, estampidos ensurdecedores e ao fundo, gritos lancinantes implorando por Deus...

 

Enquanto estas misérias teimam em se multiplicar, continuo ironicamente a contemplar o azul, o verde e o vôo. Vivo esta espécie de solidariedade à distância e esforço-me em fazer com que esta dor me torne um ser realmente humano capaz de plantar a paz por aqui, quem sabe através destas palavras, por exemplo.

 

(Este texto foi classificado em 1º lugar no concurso literário promovido pela Academia Rotária do Distrito 4520 - ROTARY CLUB INTERNATIONAL, durante a XXXV Conferência Distrital "Sonho de Mineiridade", Ouro Preto - MG, 2006).

 

 

 

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