A dor que nos cura

March 9, 2015

 

 

Falando sobre os dilemas da humanidade, creio que o maior deles está relacionado à nossa efemeridade, a  possibilidade inevitável   da  morte.  Desde  quando   se  tem   notícia  da presença do  homem  no  planeta, a  autopreservação  é um assunto   delicado.   Se   antes  o  risco  era   o  de  sermos devorados   por   grandes   animais,   hoje   esses    animais continuam enormes,  mas  com  novas  roupagens de cunho político e ideológico.

 

Não sei se há algo que mais  angustie  as  pessoas  do que a notícia  de que  alguém  que amam  não  existe mais, assim como a ideia de pensar que  podem não estar vivas daqui há um  minuto. De acordo com a antropologia,  é  por   isso   que  as  civilizações inventaram  mil  ideias  sobre  a  existência de pais divinos e imortais   com   seus   braços abertos  para os frágeis e pequeninos filhos, lhes oferecendo uma vida jubilosa depois da temida morte.

 

Outro fato que sempre nos deixa  chocados  é a  realidade do suicídio. O que leva uma  pessoa a pôr fim à própria vida? Freud foi um dos  teóricos  que  estudou o desejo de vida e o desejo  de  morte   denominando-os  como pulsões. Citando de modo sucinto,  em “Além do princípio do prazer” e “O mal  estar  da civilização”, podemos  encontrar referências de Freud à pulsão de vida que diz respeito a toda a energia  e movimento  que  a pessoa emprega para existir plenamente.  Está   relacionada às  ligações  amorosas que estabelecemos  com  o  mundo,  com  as  pessoas e com nós mesmos,  o  que  alimenta o  ânimo  para  a acordarmos de manhã e saltarmos da cama com entusiasmo para cumprir as tarefas do dia.

 

Já a pulsão de morte diz respeito à agressividade da pessoa que pode estar voltada para si mesma e/ou para os outros e diz respeito, entre outros pontos, à  compulsão inconsciente à  repetição  de  situações  desagradáveis e  limitantes  que mantém  a pessoa  em  inércia,  presa  a  condições tóxicas como,  por  exemplo,  em cargos profissionais  ou  relações conjugais insalubres.

 

A razão de cada uma dessas condições predominar na vida de  uma pessoa  tem a ver com suas características neurofisiológicas, seus contextos  de vida  desde a infância e o modo como os processou. No caso de acentuada pulsão de morte que pode ser exemplificada num comportamento inseguro em que a pessoa se expõe demasiadamente a riscos físicos, morais e sociais, é essencial um trabalho psicoterapêutico para identificar suas raízes e tratá-las visando o equilíbrio.

 

Por outro lado, filosoficamente, vejo o poder transformador que a grande realidade do fim tem sobre as pessoas. Seu poder  de mobilizá-las na direção de desejos e ideais por vezes tão grandiosos, faz com que elas sejam transportadas para o topo dos  seus autoconceitos à medida em que se superam em realizações numa possível tentativa inconsciente de   se tornarem eternas.

 

Nem tanto ao mar, nem tanto á terra, penso que é interessante convivermos com a realidade da morte nos mantendo vivos em torno de tudo que essa condição (de estarmos vivos) possa significar, vivenciando um nível razoável de realização pessoal e interação socioafetiva, transformando-nos à medida do possível em pessoas melhor preparadas e adaptadas, e transcendendo a nós mesmos sem a angústia que não faz outra coisa senão  nos roubar a atenção de  minutos como esses  que acabamos de viver.