Filhos adolescentes - 15 coisas que você merece saber.



Então, as crianças chegam à adolescência e uma grande transformação pode ser vivida por toda a família. As principais demandas trazidas pelos pais aos consultórios psicológicos dizem respeito aos filhos adolescentes e a radical transformação que eles vivenciam nessa fase.


É comum ouvir mães se queixarem que os filhos perderam a naturalidade da infância, que passaram a viver na rua ou trancados em seus quartos, ou que parecem ter desenvolvido uma verdadeira repugnância pelos programas familiares que costumavam fascina-los anteriormente.


Creio que a primeira coisa a fazer no atendimento aos pais é convida-los a se lembrarem de suas próprias adolescências. Não é preciso muito trabalho para identificarmos semelhanças entre a adolescência dos nossos filhos com a que vivemos, ainda que o contexto sócio histórico tenha sido diferente.


No passado, a influência dos regimes familiares conservadores e rígidos não permitiam a liberdade de expressão e o direito a escolhas que vemos hoje. Os filhos definitivamente não eram consultados, por exemplo, sobre o cardápio do jantar, sobre o estilo da roupa que iriam vestir ou se ficariam incomodados por não comparecerem às festas dos amigos. Simplesmente, ouviam uma negativa em alto e bom som sem direito a questionar. Os questionamentos eram considerados como clara evidência de insubordinação e atrevimento passíveis de castigos.


Hoje, felizmente, as coisas são diferentes. Crianças e adolescentes são vistos como pessoas com individualidades próprias, gostos, pontos de vista e projetos que são levados em conta na hora das decisões familiares.


Essa mudança social favoreceu o surgimento de regimes familiares mais democráticos, mas também trouxe consequências que passaram a gerar mais inquietação aos pais, principalmente por causa do crescimento da liberdade dos jovens. Liberdade para ir e vir, para se relacionarem afetivamente ainda muito cedo ou sair de casa sem definição sobre a hora de chegar – algo que eles não aceitam, são alguns exemplos.


A liberdade conquistada também trouxe no pacote a necessidade de mais responsabilidade, haja vista a ampliação da atuação social dos jovens e todas as consequências que isso implica como nos casos de uso e abuso de bebidas alcóolicas, sexo em idade precoce e gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, dentre outras.


Porém, o desenvolvimento do nível de responsabilidade não acompanhou o crescimento dessa liberdade devido a outro fator radical, o narcisismo, padrão resultante das dinâmicas socioeconômicas que apregoam o gozo a qualquer preço, inclusive por meio do consumismo sem critérios, independente das consequências.


Hoje, o jovem tem mais liberdade, mas não sabe o que fazer com as respectivas consequências porque elas esbarram na confusão gerada pelas grandes mudanças neurofisiológicas, sociais e subjetivas. Gozo versus consequências: eis a questão.


Percebe-se, então, que ser adolescente nos dias de hoje é tão difícil quanto era no passado, o que torna necessário percorrermos o tema de um modo mais científico e racional para que, uma vez compreendido, tenhamos mais ferramentas para auxiliar os jovens nessa passagem.


Acentuadas alterações hormonais, mudanças psicossociais, a perda da infância, da “proteção”, da imagem dos “pais-heróis” e a iminente necessidade de formação da identidade para a passagem à fase adulta não são questões fáceis de lidar. Embora tudo isso pareça ser um problema tendo em vista o aspecto sofrido e desagradável, a transição da fase da infância para a fase adulta é algo natural e envolve essa série de fatores que receberam a denominação de Síndrome da adolescência normal.


Erick Erickson, psiquiatra alemão, institucionalizou a adolescência ao apresentar o conceito de moratória descrevendo-a como uma fase especial no processo do desenvolvimento humano. Nessa fase, ocorre a confusão de papéis e as dificuldades para estabelecer uma identidade própria.


Na moratória psicossexual ocorre o processo de passagem da infância à plena atuação genital procriativa onde não se requerem papéis específicos e se permite experimentar o que a sociedade tem a oferecer. É na vivência das muitas experimentações sociais que o adolescente define sua própria personalidade.


1. “Meu filho se juntou a essa gente esquisita e se nega a conviver com a família como antes”


Na busca de identidade, o adolescente recorre às situações que se apresentam como mais favoráveis ao momento que estão vivendo e uma delas é a uniformidade. É na uniformidade que o adolescente encontra segurança e estima pessoal e isso resulta no processo de dupla identificação em massa onde no grupo, todos se identificam com cada um. É nesse momento que o adolescente se agrega a “tribos” em torno de atividades, estilos de vida ou motivações valorizadas em comum, nos quais se mobilizam no processo de formação da identidade. Dentre eles, podemos citar os skatistas, os Darks, os Emo’s e os Punk’s, dentre outros.


2. “Mas parece que ele gosta mais dessa gente do que de mim que sou sua mãe!”


Em certas ocasiões, a única solução para o adolescente pode ser a de procurar o que o próprio Erickson chamou também de “uma identidade negativa”, baseada em identificação com figuras negativas, mas reais. É preferível ser alguém perverso e indesejável a não ser nada. Isto constitui uma das bases do problema das turmas de delinquentes, dos adeptos às drogas, por exemplo. A realidade pode ser um tanto limitada ao não proporcionar figuras com as quais o adolescente possa fazer uma relação identificadora positiva e então, na necessidade de ter uma identidade, recorre-se a esse tipo de identificação irregular, mas concreta.


É nessa hora que os pais se desesperam, quando veem os filhos convivendo com pessoas cujos valores são muito diferentes daqueles defendidos pela família e, quanto mais reivindicam o afastamento dessas pessoas, mais os filhos parecem desejar mantê-los. Mas é importante dizer que a intenção dos filhos não é conscientemente contrariar os pais, mas inaugurar urgentemente a própria individualidade livre do parecer ou da imposição deles.


Sair da infância representa uma espécie de luto porque significa perder um status familiar para conquistar outro a nível social. Nem sempre essa perda é processada com tranquilidade e quando esse processo de luto não é vivenciado adequadamente, qualquer opção, a mais fácil ou mais próxima, se torna indispensável para o abandono da identidade da criança para a conquista da identidade de adulto.


3. “Por que parece tão difícil para ele se livrar desses amigos?”


O adolescente mostra-se extremamente inclinado pelo espírito de grupo por causa da sua necessidade de identidade e abandoná-lo se torna quase impossível a ponto dele se sentir mais pertencente ao grupo do que à família.


Um dos fatores que incomodam muito aos pais em relação aos filhos adolescentes se refere às suas atuações no grupo com seus integrantes. Essas atuações, na maioria das vezes, representam a oposição às figuras parentais e uma maneira ativa de determinar uma identidade diferente daquela que se tem na família. O filho comportado, discreto e obediente passa a se manifestar com agressividade, expansividade e autoridade buscando um nível de liberdade que defende a sua necessidade de espaço para amadurecer.


Assim, o grupo constitui a transição necessária no mundo externo para alcançar a individualização adulta, apresentando utilidade para as dissociações, projeções e identificações que seguem ocorrendo no indivíduo com características diferentes das infantis.


É nessa fase que ocorrem os atritos familiares, os estranhamentos, as discussões ou total ausência de diálogos. As relações familiares ficam melindradas e se torna indicada a assistência psicológica especializada para orientar sobre a melhor maneira de vivenciar a fase com vistas ao menor prejuízo afetivo.


4. “Mas o que fazer com o fato dele parecer viver no mundo da lua, num mundo paralelo. Nada que eu argumente faz com que ele arrede pé de suas opiniões!”


Ana Freud, psicanalista, assinala que a intelectualização e o ascetismo são manifestações defensivas típicas da adolescência. A intelectualização foi um conceito criado para designar a resistência de um paciente ao tratamento psicanalítico, pela qual ele busca explicar, fazer uma formulação discursiva racional, abstrata ou geral de seus conflitos, emoções e afetos na tentativa de melhor dominá-los. É nessa hora que os pais não conseguem compreender os argumentos usados pelos filhos adolescentes, muitas vezes confusos, incoerentes ou desprovidos de base racional, mas com uma visível imposição.


Para falarmos sobre o ascetismo que ocorre na adolescência, precisamos falar inicialmente sobre o id, uma das três estruturas do modelo psíquico, o id, ego e superego, descritos por Freud.


O id seria a fonte da energia psíquica que não espera, que sempre busca fontes de prazer para a solução imediata das tensões e que evita tudo o que é aversivo ou frustrante. Ele desconhece o que seja juízo, lógica, valores, ética ou moral. É exigente, impulsivo, cego, egoísta e antissocial.


Nesse momento em que os hormônios e os instintos gritam nos corpos adolescentes, a função do ascetismo é manter o id dentro de certos limites por meio de auto proibições. Os adolescentes temem a quantidade dos seus impulsos, ignorando a qualidade deles. É por isso que eles desconfiam de tudo o que lhes pode ser prazeroso numa tentativa de controlar severamente a urgência dos seus desejos. É, de certo modo, um meio de se protegerem de si mesmos.


Um dos problemas decorrentes dessa condição é quando essa desconfiança, a princípio apenas voltada aos instintos, pode generalizar-se às necessidades físicas mais comuns. No caso do prazer oral, o adolescente pode reduzir a alimentação diária ao mínimo sob o risco da desnutrição ou pode passar a agredir a sua integridade física se expondo a riscos desnecessários.


A necessidade de intelectualizar e fantasiar passa a funcionar como um mecanismo de defesa. A necessidade que a realidade impõe de renunciar ao corpo, ao papel e aos pais da infância, assim como à bissexualidade que acompanhou a identidade infantil, é enfrentada pelo adolescente com uma vivência de fracasso ou de impotência frente à realidade externa. O recurso ao pensamento compensa o adolescente frente às perdas que ele vive em si mesmo e que não pode evitar. O fantasiar consciente e o intelectualizar servem como mecanismos defensivos frente a estas situações de perda que lhes são muito dolorosas.


É nessas horas que o adolescente se entrega aos jogos virtuais, tanto àqueles em que ele descarrega sua agressividade e frustração em temáticas que envolvem violência, abusos e contravenções quanto àqueles em que ele se dedica à “interpretação de papeis" atuando como se fosse uma pessoa diferente em narrativas que seguem um sistema de regras predeterminado e onde ele é livre para improvisar.


Num momento em que o adolescente anseia por ter identidade e autonomia, ele vivencia livremente nos jogos diversas escolhas que determinam a direção que os mesmos irão tomar. Se por um lado essa atividade alivia a tensão, por outro apresenta o risco do vício de permanência no mundo irreal.


5. “Ele questiona tudo o que lhe falamos”.


A flutuação da identidade adolescente que se projetará como identidade adulta no futuro bem próximo adquire caracteres que costumam ser angustiantes e que obrigam a um refúgio interior que é muito característico. Essa fuga permite uma espécie de reajuste emocional, um autismo positivo no qual se dá um “incremento da intelectualização”. Ocorre uma preocupação com princípios éticos, filosóficos, sociais que muitas vezes implicam formular um novo plano de vida muito diferente do que se tinha até aquele momento. Desse modo, ocorre a teorização acerca de grandes reformas que podem acontecer no mundo exterior, como as teorias filosóficas, os movimentos políticos e as ideias de salvar a humanidade. É nesse momento que o adolescente começa a escrever versos, novelas, contos e dedica-se a atividades literárias, artísticas, etc.


6. “Estamos muito preocupados porque ele mudou radicalmente. De uma hora para outra abandonou a igreja e se declarou ateu.”


Em relação à religiosidade, o adolescente pode se manifestar como um místico muito fervoroso ou como um ateu exacerbado em situações extremas. A preocupação metafísica emerge, então, com grande intensidade e as tão frequentes crises religiosas não são meros reflexos obsessivos como às vezes costumam parecer aos olhos dos adultos. Elas são tentativas de soluções da angústia que vive o ego do adolescente na busca de identificações positivas e do confronto com o fenômeno da morte definitiva de uma parte do seu ego corporal. Além disso, ele também se depara e começa a enfrentar a separação definitiva dos pais, tendo pela primeira vez em sua vida que aceitar a possível morte dos mesmos.


7. “Ele parece estar no vácuo, não tem hora para nada, não se preocupa com nada.”


Deslocalização temporal é o nome dado ao modo como vive o adolescente, convertendo o tempo em presente e ativo na tentativa de maneja-lo, atitude que desconcerta o adulto. Essa atitude se refere ao fato do adolescente se negar a enfrentar a passagem do tempo com o necessário abandono da infância e tenta controla-lo no presente sem estabelecer ou acatar as relações temporais dos fatos em si. Isso pode ser exemplificado no hábito de adiar os estudos para uma prova importante ou de adiar o cumprimento de uma tarefa dada pelos pais, algo facilmente interpretado por eles como preguiça ou falta de respeito.


8. “Depois que o pai foi embora, ele mudou completamente.”


A falta da figura paterna faz com que tanto o rapaz quanto a moça fiquem fixados à mãe. O rapaz, ao não ter uma figura masculina com quem se identificar por déficit ou ausência da figura paterna, tentará procurar essa figura por toda a sua vida (busca do pênis que dá potência e masculinidade - psicanálise). A moça fica fixada à relação oral com a mãe e no contato pele a pele, reprimindo e negando as possibilidades de uma relação com um pênis, pela inexistência do mesmo em suas relações objetais precoces.


Muitos problemas podem surgir no comportamento nos filhos a partir dessa condição como falta de autoafirmação e de identidade própria, dificuldades de se relacionar afetivamente com outras pessoas e de firmar compromissos afetivos sexuais saudáveis.


9. “Não sei mais o que fazer, ele vive no banheiro ou no quarto a portas trancadas”.


Frente à necessidade de satisfação genital e com a intensificação da atividade masturbatória iniciada na infância precoce como tentativa de manter o sujeito na bissexualidade, se instala um conflito criado pela metamorfose corporal e o incremento da genitalidade. A masturbação ganha a finalidade exploratória e de aprendizagem preparatória para a futura genitalidade procriativa.


Assim, o sujeito passa pela etapa esquizo-paranóide de sua personalidade, quando seus órgãos genitais são alheios de si mesmo, e tenta recuperá-los e integrá-los a todo o conceito de si mesmo, formando realmente uma identidade genital adulta com capacidade procriativa, com independência real e com capacidade de formar um par estável em seu próprio espaço e em seu próprio mundo.


A fase masturbatória dos filhos adolescentes pode angustiar os pais, mas ela passa como as outras, bastando que seja respeitada e não se faça alarde sobre ela.


10. “Estou preocupado, não sei se meu filho é homem.”


Seguindo as ideias elaboradas com Arminda Aberastury, Erickson diz que é preciso buscar a raiz da homossexualidade transitória como manifestação típica da adolescência normal. Assim como na atividade genital prévia e a genital preparatória para a genitalidade procriativa, o processo masturbatório está presente desde a infância precoce até a adolescência avançada.


A masturbação é primeiro uma experiência lúdica na qual as fantasias edípicas são manejadas solitariamente, tentando descarregar a agressividade misturada com erotismo através da mesma.


11. “A rebeldia dos meus filhos me incomoda muito.”


A adolescência é recebida na maior parte das vezes de maneira hostil pelo mundo dos adultos em virtude das situações conflitivas edípicas. Criam-se os estereótipos com os quais se tenta definir, caracterizar, assinalar, ainda que se procure isolar fobicamente os adolescentes do mundo dos adultos. Deve-se ter muito cuidado com as rotulações e discriminações que podem piorar ainda mais essa fase tão difícil para eles.


Verificamos em antropologia que em quase todas as culturas acontece algum rito de iniciação da puberdade. Os chamados ritos de iniciação são muito diversos, mas têm fundamentalmente sempre a mesma base: a rivalidade que os pais do mesmo sexo sentem ao ter que aceitar como iguais – e inclusive admitir que posteriormente sejam substituídos pelos seus filhos.


É a sociedade que se encarrega do conflito edípico e tende a impor a sua solução ás vezes de uma maneira muito cruel, o que já reflete essa situação de ambivalência dual e ao antagonismo que os pais sentem com relação a seus filhos.


12. "Quer dizer que meu filho não tem um problema psicológico grave?”


A conduta do adolescente está dominada pela ação que constitui o modo de expressão mais típico nestes momentos da vida, em que até o pensamento precisa tornar-se ação para poder ser controlado. Mas ele não pode manter uma linha de conduta rígida, permanente e absoluta, ainda que muitas vezes o pretenda ou procure. Sua personalidade esponjosa, permeável, que recebe tudo e que também projeta enormemente não lhe permite ter uma linha de conduta determinada, aliás, se a tivesse, indicaria uma alteração da sua personalidade.


Essa instabilidade permanente do adolescente recebe então, o nome de normal anormalidade. A normalidade do adolescente se baseia na fragilidade da sua organização defensiva. É o mundo adulto que não suporta as mudanças de conduta do adolescente, que não aceita que o adolescente possa ter identidades ocasionais, transitórias e circunstanciais, e que exige dele uma identidade que obviamente ainda não está pronta.


13. “Então, é por isso que temos a sensação de que ele está com raiva de nós?”


Uma das tarefas básicas na identidade do adolescente é o luto pelos pais da infância. Ele precisa se separar dos pais e seu desenvolvimento biológico e seu determinismo lhe impõem isso. Os pais, por sua vez, negam o crescimento dos filhos que se encontram na urgência de vencerem esse desafio. Diante da resistência dos pais, os filhos passam a vê-los com as características persecutórias mais acentuadas, daí o surgimento de intolerância e rivalidades.


Há aqui outro ponto importante a observar. Se os pais do adolescente não vivem mais juntos devido a uma separação, por exemplo, a qualidade da relação existente entre eles também pode influenciar muito nesse momento delicado. É importante perguntar se eles, pai e mãe, deixam suas diferenças de lado, caso haja, para serem parceiros comprometidos na educação dos filhos ou se são inimigos mordazes, praticantes de alienação parental que colocam os filhos no meio de um fogo cruzado, em conflitos intermináveis repletos de pressões, chantagens, xingamentos, depreciações, desmoralizações etc. Como esperar que os adolescentes, vítimas dos próprios pais, vivenciem bem essa transição tão complexa? Como esperar que suportem tudo isso e ainda aprendam a ser adultos responsáveis, autônomos, seguros e felizes?


Se isso ocorre é fundamental que haja uma tomada de consciência, uma trégua entre os pais para que deixem suas questões particulares de lado. Que saibam colocar na balança a importância desse momento e se unam com respeito e maturidade no apoio ao adolescente para que ele consiga atravessar essa fase sem maiores problemas.


14. “É por tudo isso que ele muda de humor constantemente?”


Ao mesmo tempo em que o adolescente se sente absorvido pelo intenso trabalho mental de encontrar o caminho que lhe possibilite criar uma nova identidade, ele vive um grande medo de fracassar e de não agradar à opinião dos outros. O medo de ser criticado e rejeitado é enorme e constante. No caso de pertencer a uma família conflitiva, a insegurança pode se agigantar ainda mais em virtude dele não possuir um porto seguro onde se apoiar.


Toda essa situação gera no adolescente uma grande oscilação de humor num processo de flutuações dolorosas permanentes já que a realidade nem sempre satisfaz as suas aspirações, suas necessidades instintivas básicas. O ego tenta realizar conexões prazerosas que nem sempre acontecem. Daí advém a sensação de fracasso e o indivíduo acaba se refugiando em si mesmo num profundo estado de desesperança ou então, num elevado nível de agressividade, seu mecanismo de proteção e defesa contra forças que ameaçam o próprio ego num momento tão delicado.


15. “O que podemos fazer, então, para ajuda-lo sem invadirmos o seu espaço?”


O retorno a si mesmo é uma característica singular do adolescente que se sente frustrado nas suas tentativas de conexão prazerosa com o mundo. Essa atitude pode gerar o sentimento de solidão característica dessa típica situação de frustração e desalento. O adolescente se refugia no mundo interno que se foi formando durante a sua infância, preparando-se para a ação e reconsiderando e avaliando suas vivências. Os processos de introjeção têm o papel de obrigar o adolescente a realizar rápidas modificações no seu estado de ânimo para assim elaborar e superar os lutos.

Em casos extremos, quando o jovem não encontra apoio nessa fase difícil, pode ocorrer dele buscar refúgio em processos de fuga da realidade como no vício em jogos eletrônicos que consistem em criar uma identidade para um personagem e um contexto no qual ele é atuante e autônomo, ou seja, ele cria para si uma realidade paralela onde se realiza no personagem, “se torna” a pessoa que ele quer ser com o poder que ele quer ter.


Pode ocorrer também a adesão a drogas como possível resultado da influência de suas associações aos grupos. Tendo em vista o efeito devastador de algumas químicas sobre a estrutura cerebral, em específico na destruição neuronal que é irreversível, é extremamente necessário que os pais estejam atentos a esse risco e que ao primeiro sinal procurem ajuda especializada de psicólogos e médicos para receberem orientações adequadas sobre os tratamentos.


Em vista do exposto, a partir do conhecimento sobre todas essas implicações existentes no processo de amadurecimento na transição da infância para a adolescência, é possível aos pais compreenderem melhor a complexidade pela qual atravessa o adolescente, assim como identificar a raiz dos conflitos familiares e sociais resultantes ou influenciadores nesse período confuso. É nesse quesito, inclusive, que encontramos a diferença entre os relatos das pessoas sobre a vivência da transição infância/adolescência quando alguns são mais calmos e agradáveis e outros mais sofridos e traumáticos.


Numa relação amorosa e criativa, os pais com os papéis bem definidos diminuem os aspectos persecutórios e se convertem no modelo de vínculo genital, ou seja, eles exercem um papel amigável e confiável que oferece o suporte emocional necessário para que o adolescente processe uma boa separação, num desprendimento útil, facilitando a ele a passagem à maturidade para o exercício da genitalidade no plano adulto.


É importante que pai e mãe, independente se vivam juntos ou não, ou se tenham alguma pendência ou mágoa entre eles, que se aliem nessa transição adotando posturas mais frias em relação às próprias ideias e vontades, abrindo espaço para a formação e manifestação da nova identidade dos filhos. A compreensão é necessária para que eles tenham o tempo e a tranquilidade que precisam para se tornarem adultos com identidade própria, um requisito essencial para a continuidade do desenvolvimento saudável e produtivo. A identidade de uma pessoa é de suma importância, pois ela é seu cartão de visitas diante do mundo no qual ela se coloca, se projeta, atua e conquista seus projetos de vida.


É imprescindível, portanto, que os pais se acalmem e confiem um pouco mais na educação e nos valores que transmitiram ao longo dos primeiros anos, ainda que lhes pareça que os filhos tenham se esquecido deles. Com o tempo e na maioria das vezes, a fase crítica passa e eles retornam fortalecidos e amigáveis, gratos pelas boas sementes plantadas neles.


Referências:

ERICKSON, E. - Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar Editores, (1976).




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