A dor que nos cura


Falando sobre os dilemas da humanidade, creio que o maior deles está relacionado à nossa efemeridade, a possibilidade inevitável da morte. Desde quando se tem notícia da presença do homem no planeta, a autopreservação é um assunto delicado. Se antes o risco era o de sermos devorados por grandes animais, hoje esses animais continuam enormes, mas com novas roupagens de cunho político e ideológico.


Não sei se há algo que mais angustie as pessoas do que a notícia de que alguém que amam não existe mais, assim como a ideia de pensar que podem não estar vivas daqui há um minuto. De acordo com a antropologia, é por isso que as civilizações inventaram mil ideias sobre a existência de pais divinos e imortais com seus braços abertos para os frágeis e pequeninos filhos, lhes oferecendo uma vida jubilosa depois da temida morte.


Outro fato que sempre nos deixa chocados é a realidade do suicídio. O que leva uma pessoa a pôr fim à própria vida? Freud foi um dos teóricos que estudou o desejo de vida e o desejo de morte denominando-os como pulsões. Citando de modo sucinto, em “Além do princípio do prazer” e “O mal estar da civilização”, podemos encontrar referências de Freud à pulsão de vida que diz respeito a toda a energia e movimento que a pessoa emprega para existir plenamente. Está relacionada às ligações amorosas que estabelecemos com o mundo, com as pessoas e com nós mesmos, o que alimenta o ânimo para a acordarmos de manhã e saltarmos da cama com entusiasmo para cumprir as tarefas do dia.


Já a pulsão de morte diz respeito à agressividade da pessoa que pode estar voltada para si mesma e/ou para os outros e diz respeito, entre outros pontos, à compulsão inconsciente à repetição de situações desagradáveis e limitantes que mantém a pessoa em inércia, presa a condições tóxicas como, por exemplo, em cargos profissionais ou relações conjugais insalubres.


A razão de cada uma dessas condições predominar na vida de uma pessoa tem a ver com suas características neurofisiológicas, seus contextos de vida desde a infância e o modo como os processou. No caso de acentuada pulsão de morte que pode ser exemplificada num comportamento inseguro em que a pessoa se expõe demasiadamente a riscos físicos, morais e sociais, é essencial um trabalho psicoterapêutico para identificar suas raízes e tratá-las visando o equilíbrio.


Por outro lado, filosoficamente, vejo o poder transformador que a grande realidade do fim tem sobre as pessoas. Seu poder de mobilizá-las na direção de desejos e ideais por vezes tão grandiosos, faz com que elas sejam transportadas para o topo dos seus autoconceitos à medida em que se superam em realizações numa possível tentativa inconsciente de se tornarem eternas.


Nem tanto ao mar, nem tanto á terra, penso que é interessante convivermos com a realidade da morte nos mantendo vivos em torno de tudo que essa condição (de estarmos vivos) possa significar, vivenciando um nível razoável de realização pessoal e interação socioafetiva, transformando-nos à medida do possível em pessoas melhor preparadas e adaptadas, e transcendendo a nós mesmos sem a angústia que não faz outra coisa senão nos roubar a atenção de minutos como esses que acabamos de viver.


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