O animal que mora em nós


Quando eu era menina, assisti a um filme que me marcou profundamente. "A onda" contava a história de um professor universitário americano que propôs uma reflexão sobre o nazismo e a ideologia da raça pura. Para isso, ele fez relatos sobre o contexto sócio histórico, político e econômico e apresentou vídeos aterradores que exibiam o absurdo ultraje cometido contra milhares de seres humanos. A caça e o “abate” de judeus adultos, velhos e crianças, os sequenciais assassinatos sumários, o confisco de tudo o que tivesse valor nas casas, todos os recursos financeiros de inúmeras famílias, desde obras de arte, livros, joias a histórias, sonhos e afetos, tudo saqueado ou destruído.


Lembro-me de que durante a aula do professor, muitos alunos se indignavam e criticavam veemente as atrocidades cometidas no holocausto. Outros perguntavam escandalizados, como uma pessoa conseguiu influenciar e arrastar milhares de outras a partir de ideias tão desumanas e sectárias?


Nos dias seguintes, o professor estranhamente começou a disseminar ideias de discriminação como se quisesse influenciar os estudantes a considerarem plausível o argumento da raça pura. À medida que repetia o argumento, a adesão foi se tornando quase maciça. Rapidamente foi instalado o racismo entre os alunos com a ocorrência pontual e crescente de ataques contra os negros da escola.


Moças e rapazes negros começaram a sofrer humilhações, ataques físicos e verbais. Laços de amizade, parcerias, admirações construídas até então foram se perdendo pouco a pouco. Não sei dizer ao certo por quanto tempo durou a experiência, se uma questão de dias ou semanas. Mas me lembro de que o professor assistiu e conduziu subliminarmente as ações que culminaram num encontro frenético de todo o corpo discente no auditório da universidade, onde os jovens acreditavam que haveria o confronto final.


A atmosfera de tensão no filme era grande e eu me senti bastante apreensiva diante do fato do professor ter incitado os alunos àquela violência, temia pelo desfecho que estava para acontecer. Num claro cenário de guerra no qual todos os jovens brancos ostentavam porretes, barras de ferro, correntes e armas brancas, jovens negros se encontravam totalmente assustados, aprisionados e acuados.


Quando todos já se encontraram no auditório gritando e incitando à violência, a tela de projeção foi ligada e as cenas do holocausto nazista começaram a ser exibidas. Todos se silenciaram enquanto surpreendentemente, o ousado professor foi ao microfone e fez um discurso impactante para responder à pergunta: Como uma pessoa consegue influenciar e arrastar milhares de outras pessoas a partir de ideias tão desumanas?


Num misto de alívio e estupefação, percebi que todo aquele terror foi proposital por parte do mestre que viu naquela pergunta, uma oportunidade didática para demonstrar o efeito catastrófico gerado pela combinação ideologia/intolerância/discriminação.


Ele mostrou como a ideologia política e social e a manipulação de massa se processam. Demonstrou o fenômeno pelo viés filosófico e psicológico e destacou o quanto a espécie humana é vulnerável quando forças manipuladoras encontram ou criam o momento e a forma ideal para defenderem ideias ou objetivos na maioria das vezes, escusos e imorais.


As armas foram caindo no chão, uma a uma e muitos alunos se mostraram transtornados, chorando ao se darem conta da atrocidade que estavam prestes a cometer. Pessoas do bem, trabalhadoras, estudiosas, educadas e que, inclusive, frequentavam igrejas aos domingos, se constataram totalmente distorcidas, transformadas em verdadeiros monstros sem que se dessem conta disso...


O relato dessa história serve de base para falar sobre uma condição que tem se manifestado repetidas vezes nos consultórios psicológicos: a infelicidade, a angústia, a insegurança e o medo gerados por questões atuais que ferem os direitos ao trabalho, à alimentação, à estabilidade econômica e a integridade física, entre outros.


A notícia da violência sexual sofrida recentemente por uma adolescente de 16 anos por nada menos que 30 algozes provocou uma comoção nacional. Suscitou a reflexão e a retomada de diversos fatos semelhantes. Ficamos tristes com ela e por ela, principalmente porque nos descobrimos vulneráveis, fracos e ao mesmo tempo, animalescos autores de nossa própria infelicidade coletiva. Sim, autores...


Penso que é enorme a responsabilidade que cada um de nós tem para com o coletivo no que se refere à mensagem intrínseca de tudo o que pensamos e fazemos e também, pelo que deixamos de fazer. Um exemplo mais visual do que estou falando é o efeito devastadador criado por muitos líderes mundiais quando tomam decisões que ferem os direitos da coletividade. Toda sorte de prejuízos materiais e subjetivos impostos aos povos que os elegeram. Quanta ironia!


Qual é a mensagem intrínseca captada pelo inconsciente coletivo, resultante dessas ações? Quais os pensamentos, sentimentos e energias estão sendo disseminados entre nós a partir da conscientização sobre provas do mau caratismo, da perversidade e da corrupção? A tristeza, a revolta, a humilhação, o desejo de vingança, a raiva, a vontade de matar e de morrer? É o que ouvimos nos consultórios.


Num sentido mais amplo, convenciona-se de que a criança é o adulto de amanhã, o futuro do planeta. Pois bem, elas também estão expostas a esse inconsciente coletivo, por isso pergunto, qual lição estará sendo assimilada por elas nesse momento de individuação e formação do seu caráter? Que a maldade, a pilantragem e a corrupção são naturais? Que a desonestidade e a deslealdade são coisas comuns e corriqueiras? Que assim como acontecem nos seus videogames, prejudicar, machucar ou matar pessoas é plausível?


E para aqueles que mesmo sendo adultos, ainda não aprenderam valores como ética, respeito e espírito de cidadania, ou que se encontram afetivamente abandonados, desprotegidos, sem o suporte de famílias amorosas e educadoras, expostos a toda sorte de circunstâncias destrutivas, o que lhes resta pensar ou fazer? Defenderem-se com unhas e dentes à base do ferro e do fogo? Acreditar que vale “tomar o que precisam”, roubar ou extorquir para tamponar seus vazios? Vale violentar crianças e mulheres para alimentarem suas doentias necessidades de gozo? Onde falhou a aprendizagem dos limites? A quantas léguas de distância deles passou a semente do amor?


É imenso o problema, concorda? E não se pode consertar algo sobre o qual não temos consciência de que está precisando de conserto. Por isso é preciso refletir sobre tantas coisas. Por isso não podemos deixar agir a qualidade negativa e destrutiva do pensamento coletivo que hoje paira entre nós, influenciando livremente e inconscientemente o nosso modo de operar as nossas vidas, nos fazendo ficar tristes, solitários, amedrontados e sem chão...


Estamos cansados e não precisamos viver a mesma experiência do filme para sermos sacudidos e conscientizados sobre melhores sentidos para as nossas vidas. Não precisamos entrevistar adultos, trabalhadores ou crianças sobre como é a experiência de conviverem com os citados flagelos políticos, sociais e econômicos. Mas é fundamental percebermos que a nossa omissão e submissão criam e alimentam esses monstros ideológicos. Por isso é importante nos posicionarmos seriamente e fazer uma lista dos talentos e habilidades necessários que nos orientem à luz dos velhos e bons valores capazes de edificar pessoas para o bem. Caso contrário, nos manteremos passivos e irresponsáveis diante desses monstros, nessa condição desoladora de deixa-los crescerem para depois nos devorar.

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