Como tratar os traumas da infância?

June 23, 2016

 

Por todos os anos de sua infância, ele foi um menino introspectivo que brincava sozinho pelo quintal e era muito responsável com suas tarefas. Segundo ele, sua mãe sempre foi amorosa e protetora e seu pai um tanto rígido e intolerante, mas sempre os amou muito. Sua vida evoluiu dentro dos padrões normais, ou seja, cresceu, se formou, se casou e constituiu família. Seu nome era Sebastian, mas sua família o chamava carinhosamente de Seb.

 

Embora tivesse uma grande inteligência e criatividade, uma tristeza silenciosa o acompanhou por toda a vida e talvez isso explique o fato dele não ter conquistado grandes sucessos. Sempre que experimentava o insight de algo interessante ou uma ideia inovadora, logo era ofuscada por uma estranha insegurança fazendo com que recuasse e abandonasse bons projetos no fundo de gavetas. A repetição dessas experiências o tornou ainda mais fechado em si mesmo, algo que se intensificava ao longo dos anos.

 

Quando seu primeiro filho completou quatro anos de idade, Seb se fechou num estado de profunda tristeza. Sua produtividade profissional caiu tão significativamente que sua esposa lhe pediu que se afastasse do trabalho por algum tempo e que procurasse ajuda especializada. Ele se encontrava tão fragilizado que atendeu ao pedido dela sem nenhuma resistência.

 

Encaminhado por um clínico geral, Seb compareceu à primeira sessão de terapia engajado em se tratar, pois sabia que algo muito intenso e incompreensível estava lhe acontecendo e seu senso de responsabilidade lhe dizia que não podia permanecer naquele estado por muito tempo, afinal tinha uma família para cuidar.

 

Após ouvir sobre a demanda e os primeiros relatos sobre a história de Seb, a psicóloga lhe explicou como seria realizado o processo terapêutico. Consistiria de momentos para seu discurso livre e outros de exercícios para o autoconhecimento. Seb também recebeu uma tarefa da qual nunca ouviu falar, a tarefa de fazer perguntas a si mesmo sobre tudo o que estava sentindo e de se abrir às respostas que seu inconsciente lhe daria.

 

As semanas foram passando e as sessões de terapia fluindo produtivamente até que numa noite, Seb teve um pesadelo que o fez acordar chorando. A carga emocional era tão forte que ele chorou copiosamente ao relata-lo à psicóloga. A intensidade emocional presente no relato evidenciava se tratar de algo importante que merecia atenção. Ela lhe perguntou se algo parecido havia lhe acontecido, mas ele não se lembrava claramente e que talvez o lugar fosse o quintal de uma antiga casa onde morou com seus pais e irmãos. Então ela sugeriu que ele conversasse sobre o pesadelo com eles.

 

Dias depois, durante um almoço com toda a família, seu pai lhe perguntou como estava se sentindo, se estava melhor. Seb não se sentiu muito á vontade com a pergunta e respondeu positivamente com apenas um aceno de cabeça. Mas sua esposa sentiu a oportunidade terapêutica no ar, comentou sobre o pesadelo de Seb ocorrido dias antes e lhe pediu que o contasse. Todos se interessaram em ouvir.

 

- Eu era pequeno e o dia parecia estar chuvoso, pois a terra do chão estava escorregadia. Havia um buraco no chão cheio de água como se fosse uma piscina e eu desejei nadar nele. Por várias vezes, papai me disse que não ficasse muito na beirada e que não entrasse lá, mas eu não desisti, esperei uma distração dele para me jogar na água e assim fiz. Entretanto, tão logo entrei, o espaço de água começou a crescer e a ficar mais profundo. Eu não conseguia me manter na superfície e comecei a me afogar. Então, entrei em desespero porque não podia chamar pelo senhor, pai, pois tinha medo que me castigasse. Quando parecia que eu já estava quase morrendo, senti um puxão violento e me vi sendo esmagado pelos seus braços enquanto o senhor gritava comigo. Foi um pesadelo terrível...

 

Quando Seb terminou de contar o pesadelo para a família, tanto ele quanto seus pais estavam com os olhos marejados. Seu pai então se levantou, o ergueu da cadeira e o abraçou intensamente com todas as suas forças e lhe disse:

 

- Esse dia realmente aconteceu e foi um dos piores dias da minha vida. Quando você tinha a idade do seu filho, eu estava abrindo um poço de carpas no nosso jardim, você se lembra? E no dia em que eu estava enchendo o poço para colocar os peixes, eu me distraí e não vi você cair lá dentro. Somente quando ouvi o barulho do seu corpo se debatendo na água foi que corri e te agarrei enquanto você tossia engasgado pela água barrenta. Naquele dia eu tive tanto medo de te perder que te abracei com todas as minhas forças. Eu não percebi que te apertei tanto...

 

Ao ser informado de que seu pesadelo, na verdade, foi a repercussão inconsciente de uma experiência traumática, Seb começou a entender melhor os seus sentimentos. Entendeu também que o agravamento de sua distimia ocorreu exatamente quando seu filho atingiu a idade que ele tinha na época do episódio do poço. Isso demonstra o porquê de determinadas experiências eliciarem fortes emoções que não sabemos explicar.

 

Por algum motivo, Seb registrou em sua memória que seu pai era rígido e intolerante e o fato de no pesadelo ter sentido medo de gritar por ele por receio de ser castigado pode explicar sua falta de autoconfiança e de coragem para se "lançar" em novos projetos. Um traço resultante da autocrítica severa, da culpa por ter desobedecido seu pai, do medo de falhar e de ser de castigado que alimenta continuamente o padrão disfuncional.

 

Na vida real, ao ser retirado do poço, o pequeno menino foi fortemente abraçado pelo pai fragilizado pelo susto, mas no pesadelo, esse movimento foi interpretado de modo distorcido, interpretado um castigo pela sua desobediência. Ao ouvir a explicação do pai e ao mesmo tempo ser abraçado afetuosamente por ele, Seb viveu uma rica oportunidade de fazer uma releitura do fato para compreender  e fechar uma ferida subjetiva que o influenciou até então. 

 

Essa história baseada em fatos reais ilustra os processos da memória e dos mecanismos de defesa que costumam bloquear lembranças traumáticas para nos pouparem do sofrimento. Isso é ainda mais complexo em relação às experiências da infância quando a capacidade de percepção e o código simbólico necessário para a análise coerente das circunstâncias ainda se encontram em desenvolvimento e tanto os acontecimentos reais podem ser mal interpretados e distorcidos quanto essas distorções podem ser entendidas ou consideradas como verdadeiros registros do passado. Uma vez armazenadas no inconsciente, elas influenciarão todo o nosso funcionamento cognitivo e afetivo sem nos darmos conta. Nossas crenças, valores, padrões de pensamento e funcionamento moldados sob a influência do nosso confuso inconsciente.

 

Uma vez desvendado o fato traumático, novas leituras e posicionamentos podem ser adotados diante dele e todas as emoções, sentimentos e pensamentos podem ganhar uma nova versão mais leve e autêntica. Assim, a educação cognitiva proporcionada pela psicoterapia auxilia na superação das dificuldades subjetivas e na construção de novos padrões de funcionamento mais realistas e eficientes. A vida ganha uma nova cor com novas perspectivas para o fortalecimento do Eu e para a sua plena realização.